O médico e o monstro

Edu é o nosso homem de marketing. Figura animadíssima. Esteve comigo no ano passado em Nova York e Pensilvânia para conhecer a matriz da Runner`s. Acabou se apaixonando pela revista e pelo tema. Lá mesmo, decretou: "Vou começar a correr". E, enquanto trabalhávamos para lançar o número 1 em novembro passado, Edu deu seus primeiros trotes. Pegou a primeira planilha e mandou ver.
O doutor Nélio é o pediatra dos meus filhos. Não o conheço tão bem, mas pelas conversas e fotos penduradas na parede do consultório, é inquieto. Esquia com os filhos e corre. Quando soube disso, puxei assunto e descobri que ele treinava com o Adauto Domingos, o técnico do Marílson dos Santos.
No domingo passado, Edu e o doutor Nélio largaram juntos na meia do Rio. Minha filha Nina estava me esperando na chegada quando observou um grisalho atleta. "Aquele lá não é o Doutor Nélio?" Era. Com quase 20 anos mais do que eu, chegou antes de mim. Conseguiu o 1h40min nos 21 km, meu sonho. Foi o quinto colocado na categoria 60-64 anos. Resultado de uma genética privilegiada e de muito treino.  Quatro vezes por semana, sempre com muita qualidade.
O tempo passava e o Edu não chegava ao final de sua primeira meia maratona. Já tinha feito antes um 10 km e o 12,5 km da Corpore. Todas lentamente... Duas horas, duas horas e meia e nada do Edu apontar na reta de chegada. Três horas depois de largar, ele chegou correndo. Com um sorriso enorme. "Consegui, e sem caminhar", disse ele.
Fiquei com as duas histórias na cabeça. Achei uma insanidade do Edu. Acompanhei a sua preparação de perto. Um festival de trapalhadas. Edu é um ladrão de planilhas. Não há semana que não dê aquela roubadinha. É a distância que encurta, o tempo que é surrupiado, o treino cancelado pelas razões mais diversas. Em um dia, foi o trabalho. Noutro, uma festa. A gripe, o desconforto, a viagem com a namorada, não faltam desculpas para não treinar. Fui um dos que o desaconselharam a participar da meia. Faltava muito volume de treino. Ele é teimoso, ou seria persistente? As palavras muitas vezes se confundem. Ele conseguiu, pagando um preço altíssimo. Não se faz uma meia em três horas ou uma maratona acima de cinco horas. Não é razoável passar tanto tempo submetendo o corpo a tanta provação.  Convite para as lesões. Apesar de parecer o Fantomas (ou seria La Múmia?) do Telecatch nos dias seguintes, mancando para valer, Edu não tira o sorriso da cara. É um louco, com bravura. Só a corrida pode reunir na mesma competição figuras tão diferentes quanto o Edu e o doutor Nélio. Foto: por Gustavo Theme/Webrun

Mercenários

A foto me denuncia. Assim como são desprezíveis jogadores de futebol mercenários que jogam apenas por dinheiro, os corredores que suam a camisa apenas por um bom copo não valem nada. O retrato foi pós-maratona de Paris, de novo eu com a mesma premiação etílica...
Nem era sobre isso que queria falar. O assunto é a maratona e meia-maratona do Rio. Corri a meia, mas como os trajetos eram coincidentes, posso dizer que corri também metade da maratona. Organização impecável, no que percebi. Beleza natural, hidratação, prova de primeiro mundo. Para não dizer que não vi nenhum problema, um pequeno detalhe: o isotônico era distribuído em garrafas grandes e com lacre e tampa. Dava trabalho para abrir e tomar. Um problema mínimo, já que muita maratona de respeito nem isotônico distribui (a de Paris em 2008, por exemplo).
Os organizadores propagandearam ser "A maior maratona do Brasil". Polêmico. Qual é o parâmetro para chegar a essa conclusão? Número de inscritos ou número de corredores que ultrapassam a linha final? Na minha opinião, vale o segundo critério. Inscrever muita gente é possível, o papel aceita tudo. Ter gente efetivamente acordando cedo para a corrida, e de fato correndo, são outros quinhentos. Aí é mundo real. A Maratona de São Paulo teve 2713 concluintes. Curitiba aparece com 1604 e Porto Alegre com 1170. No domingo, no Rio, "apenas" 2168 chegaram. É claro que trata-se de um número respeitável, só que insuficiente para desbancar São Paulo no posto de "A maior do Brasil". Tudo indica, porém, que isso pode mudar. Ouvi que a TV Globo acredita que a Maratona de SP “já deu o que tinha que dar” em matéria de audiência. O Rio teria mais potencial. Concordo. Se o clima carioca é mais duro para quem corre, também é verdade que o trajeto dá de goleada em São Paulo. Grandes maratonas vivem da atração turística, outra vantagem evidente do Rio. Vamos ver, o tempo dirá quem será a maratona número 1 do país.

publicidade
SobreAutor
Sérgio Xavier Filho tem 42 quilômetros. Quer dizer, 42 anos.
É jornalista, faz a Revista Placar desde 1995 e brigou feio na Editora Abril para ficar também com a revista Runner's World. Venceu pelo cansaço. Agora uniu o útil ao agradável. Pode falar e escrever sobre seu lazer. Até está sendo pago por isso. Já correu dezenas de 10K, várias meias-maratonas, um bocado de revezamentos e três maratonas.

Prometeu a mulher que não passa dos 42,195K (mas não sabe se vai cumprir).
PostsAntigos
África do Sul | Alemanha | Austrália/Nova Zelândia | Espanha | Estados Unidos | França | Holanda/Bélgica | Itália | Polônia | Reino Unido | Suécia