por SergioXavier

O médico e o monstro

Edu é o nosso homem de marketing. Figura animadíssima. Esteve comigo no ano passado em Nova York e Pensilvânia para conhecer a matriz da Runner`s. Acabou se apaixonando pela revista e pelo tema. Lá mesmo, decretou: "Vou começar a correr". E, enquanto trabalhávamos para lançar o número 1 em novembro passado, Edu deu seus primeiros trotes. Pegou a primeira planilha e mandou ver.
O doutor Nélio é o pediatra dos meus filhos. Não o conheço tão bem, mas pelas conversas e fotos penduradas na parede do consultório, é inquieto. Esquia com os filhos e corre. Quando soube disso, puxei assunto e descobri que ele treinava com o Adauto Domingos, o técnico do Marílson dos Santos.
No domingo passado, Edu e o doutor Nélio largaram juntos na meia do Rio. Minha filha Nina estava me esperando na chegada quando observou um grisalho atleta. "Aquele lá não é o Doutor Nélio?" Era. Com quase 20 anos mais do que eu, chegou antes de mim. Conseguiu o 1h40min nos 21 km, meu sonho. Foi o quinto colocado na categoria 60-64 anos. Resultado de uma genética privilegiada e de muito treino.  Quatro vezes por semana, sempre com muita qualidade.
O tempo passava e o Edu não chegava ao final de sua primeira meia maratona. Já tinha feito antes um 10 km e o 12,5 km da Corpore. Todas lentamente... Duas horas, duas horas e meia e nada do Edu apontar na reta de chegada. Três horas depois de largar, ele chegou correndo. Com um sorriso enorme. "Consegui, e sem caminhar", disse ele.
Fiquei com as duas histórias na cabeça. Achei uma insanidade do Edu. Acompanhei a sua preparação de perto. Um festival de trapalhadas. Edu é um ladrão de planilhas. Não há semana que não dê aquela roubadinha. É a distância que encurta, o tempo que é surrupiado, o treino cancelado pelas razões mais diversas. Em um dia, foi o trabalho. Noutro, uma festa. A gripe, o desconforto, a viagem com a namorada, não faltam desculpas para não treinar. Fui um dos que o desaconselharam a participar da meia. Faltava muito volume de treino. Ele é teimoso, ou seria persistente? As palavras muitas vezes se confundem. Ele conseguiu, pagando um preço altíssimo. Não se faz uma meia em três horas ou uma maratona acima de cinco horas. Não é razoável passar tanto tempo submetendo o corpo a tanta provação.  Convite para as lesões. Apesar de parecer o Fantomas (ou seria La Múmia?) do Telecatch nos dias seguintes, mancando para valer, Edu não tira o sorriso da cara. É um louco, com bravura. Só a corrida pode reunir na mesma competição figuras tão diferentes quanto o Edu e o doutor Nélio. Foto: por Gustavo Theme/Webrun

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